Percurso pela linha férrea entre Barca D’Alva e Pocinho: A natureza ganha sempre
Este fim-de-semana teve mais trilhos e sarilhos, desta vez pelas margens do Douro. Há algum tempo que andávamos a debater sobre fazer ou não este “trilho” especificamente. São 30km ao longo da parte desactivada da linha do Douro, entre Barca de Alva e a estação do Pocinho. Pelo percurso, encaramos mais três estações desactivadas: Almendra, Castelo Melhor e Côa.
Antes de mais, lemos muito sobre o percurso e quais as melhores alternativas para o fazer. Optámos por acampar a meio do percurso, preferencialmente em Castelo Melhor. Sabíamos também que era bastante básico: seguir a linha férrea; não havia muito por onde nos perdermos. Equipamento próprio não nos falta, sendo de maior importância o calçado, dado o piso em pedra solta e gravilha.
Começando pelo início. Saímos do Grande Porto por volta das 11:30 da manhã e chegámos a Barca D’Alva às 14:30, depois de muitas voltas pelas colinas e montes. Tirámos a barriga de misérias com alguma comida que trouxemos e pusemo-nos em marcha. O trilho começou, literalmente, com o pé esquerdo. Um dos nossos elementos pisou em falso uma peça de metal enferrujado e daí surgiu o primeiro (de muitos) arranhão do dia. Ficou tudo bem, mas já conseguíamos prever que não ia ser nada fácil, dado o mau estado do percurso.
Primeiramente, o trilho em si, até Côa, foi completamente raptado por todo o tipo de vegetação. Durante certas partes do trajecto, a dificuldade acrescida em ultrapassar as silvas abrandou-nos imenso o ritmo. Tivemos de desbravar várias centenas de metros e procurar alternativas para conseguirmos avançar sempre. O dia estava quente, por isso começámos o percurso de calções: o nosso primeiro grande erro. Arranhões, espigas nas botas entre outras maleitas menos boas começaram a entrar no cardápio e tornava-se cada vez mais difícil não parar. Façam este percurso de calças e de meias altas, se não querem terminar com aspecto de quem foi atacado por um urso.
As nossas mochilas iam pesadas, pois carregávamos água, comida, roupa, tenda, sacos-cama, produtos de higiene necessários, etc. Este percurso exige que se leve água desde o princípio. Não bebam água do rio; é preferível levar vários litros para beber ao longo do caminho. Relativamente a alimentação, barras calóricas, proteína essencial e comida, no geral, de boa conservação, são essenciais. Nunca esquecer as bananas, o queijo e até mesmo o chocolate: salvam vidas!
Há quatro pontes ao longo dos 30km, sendo a primeira a que estava em pior estado. Para quem tem vertigens, preparem-se… Não é fácil. Mesmo durante o percurso em si, existem várias zonas em que é preciso encarar este medo. Tenham em atenção que não há nenhuma alternativa para contornar estas partes. Mesmo para quem não tem vertigens, estas zonas podem ser relativamente perigosas.
Sensivelmente a meio do percurso, chegámos à antiga estação de Castelo Melhor, onde acampámos. Eram 20:30 e o sol já se estava a por. Rapidamente montámos as tendas e aproveitámos os últimos raios de sol. A nossa vista era invejável e a ausência de qualquer som humano era simplesmente abismal. Vimos as estrelas a aparecer no céu escuro, uma a uma, até ficar totalmente estrelado. Às 22:30, fomos dormir, com o intuito de acordar por volta das 6 da manhã para começar a segunda parte da caminhada cedo. Fomos acordados pelos pássaros todos, numa sinfonia quase ensurdecedora. Desmontámos o acampamento e continuámos, visivelmente ainda cansados e sem grande vontade de conversar. Até Côa, o caminho revelou-se difícil. No entanto, a partir daí, finalmente melhorou, já nos últimos 10km que percorremos. Passámos túneis pelo caminho, encontrámos tartarugas e raposas, e continuámos a levar com silvas, claro.
Voltar a ver o Pocinho foi maravilhoso. Forasteiros numa vila, à procura de um restaurante onde comer às 13:30. Quando nos sentámos, foi o céu na terra. Comemos, bebemos até ficarmos demasiado cheios… e usámos uma casa de banho a sério! Depois, para voltar, 40€ de táxi de volta até à Barca. Percursos lineares são assim e 35km de distância batem bastante forte.
No geral, foi um bom trilho. Peca pelo estado em que se encontra, porque é realmente inconveniente em certos troços totalmente cobertos por vegetação. Na altura fiquei um pouco decepcionada mas… em retrospectiva, ainda bem que foi difícil. Às vezes as aventuras exigem conhecer novos limites.
















